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Retalhos da vida de uns professores

Por aqui contamos episódios que se passaram dentro de uma sala de aula. Se és professor e quiseres, junta-te a nós!

Por aqui contamos episódios que se passaram dentro de uma sala de aula. Se és professor e quiseres, junta-te a nós!

Retalhos da vida de uns professores

26
Set21

Velhos são os trapos?

Talvez não...

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º ano.

 

Segunda aula, no fim. Estou a recolher as folhas do trabalho dos alunos. Uma das folhas voa da mesa, antes de o aluno ma entregar. Baixo-me e apanho a folha (com facilidade).

 

Aluno, com ar surpreendido: Como é que conseguiu apanhar a folha, se é tão velha?

Eu, dando-lhe com as folhas ao de leve na cabeça: Velha é a tua avó.*

Aluno: [sorri, achando piada à minha resposta]

 

*Sem ofensa às avós, "instituição familiar" que muito prezo.

17
Abr21

Aula agitada,

Professora adulada?

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º ano.

 

No fim da aula, uma aluna entrega-me uma pequena folha com letras desenhadas e pintadas por si, a dizer "i* LOVE MRS APELIDO**".

 

*Curiosamente, a mensagem estava toda em maiúsculas, exceto o início! Tenho constatado, ao longo dos anos, que muita gente insiste em colocar a pinta no "i" maiúsculo de imprensa - tanto miúdos, como graúdos (inclusive professores...)

**O meu apelido, evidentemente, e não a palavra apelido

09
Fev21

Ao fim de dois dias de Ensino@Distância...

... estou contente!

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º e 4.º.

 

"E estás contente porquê?" -perguntam vocês, e perguntam bem.

Estou contente porque alguns alunos que não tinham computador e não apareciam nas aulas online no ano passado e/ou no 1.º Período deste ano letivo (quando tive turmas em isolamento profilático) já receberam o computador [emprestado até ao fim do ciclo de ensino que frequentam] que o ME prometeu (e só cumpriu tardiamente e numa percentagem muito, muito, pequenina) e apareceram e participaram com boa vontade nas aulas.

 

24
Nov20

Uma experiência diferente

numa aula de revisões

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º.

 

Hoje, numa aula de revisões (terão teste na próxima aula), dei hipótese aos alunos de escolherem o que estudar, e como estudar. Dei-lhes algumas dicas, servindo-me do exemplo de uma criança de outra turma, que estava a estudar escrevendo os números até 100 (em inglês) conforme lhe parecia que se escreviam, sem fazer qualquer verificação. Escusado será dizer que, dessa forma, continuaria sem saber escrever as palavras que escrevia com erro.*

Nos últimos minutos da aula, pedi-lhes que dessem a opinião/fizessem uma avaliação da experiência. Nem todos os alunos que queriam falar tiveram oportunidade de o fazer, mas vários  disseram que tinha sido divertido poder escolher e que tinha dado mais gosto trabalhar assim. Um aluno chegou mesmo a dizer algo semelhante a isto: "Como os professores costumam falar muito 🙄, foi bom poder escolher, para variar. 😁" 

Apesar de estarem no 4.º ano, só este ano são meus alunos. Esqueci-me de referir que os sondei ao início da aula, perguntando-lhes se alguma vez tinham tido oportunidade de escolher o que iriam fazer, na escola [entenda-se: nas aulas]. A resposta foi uníssona: "Não, os professores é que decidem."

Como é que os alunos hão de crescer em autonomia** se nunca lhes é dada essa hipótese? Também sou culpada disto, não pensem que não... 

 

*Espero que não tenha sido esse o caso, pois quando reparei no que fazia chamei a atenção para o problema.

 

**Autonomia é muito mais do que "fazer a ficha"ou "responder às perguntas" sem pedir ajuda...

 

07
Out20

COVID-19 e quarentena

nas aulas de inglês

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º.

Num exercício para completar frases iniciadas por:

I love ...
I like ...
I don't like ...
I hate ...

... muitos alunos escreveram COVID-19 na última. Não me surpreendeu.

Um aluno perguntou-me como se dizia "quarentena" em inglês. Eu disse-lhe (quarantine). A seguir perguntou-me como se escrevia. Eu disse-lhe, com a salvaguarda que teria de verificar se a seguir ao R era mesmo um E, como lhe disse, ou se era um A. É com A (quarantine) - hoje já lhe vou dizer para corrigir. 🙂

18
Jul20

A única amiga

- uma história rebuscada de aparente racismo

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º.

 

[Creio que não vou conseguir contar este episódio de forma muito exata. Mas da essência recordo-me, por isso vou avançar... Os nomes são inventados.]

 

Perto do fim do ano letivo, uma Mariana desesperada, quase em lágrimas, aparece na sala num intervalo grande, acompanhada da colega Luísa. Apresenta-me o seu problema:

 

- Professora, todas as meninas estão chateadas comigo e já não são minhas amigas porque dizem que eu chamei nomes [não me lembro o quê] à Inês, por ela ser preta, mas eu não chamei! Só a Luísa é que acredita em mim - ela é a única amiga que eu tenho agora. E a Carla [uma menina robusta com tendência para resolver os problemas à pancada, de pele escura tal como a Inês*] diz que me vai bater por eu ter dito aquilo, mas eu não disse!

 

Pedi que fossem chamar as visadas. Vieram. Coloquei cadeiras para ficarmos  sentadas em roda, as cinco: Mariana, Luísa, Inês, Carla e eu.

Expliquei o que me tinha sido relatado e dei a palavra à Inês e também à Carla. Resumindo: alguém disse à Inês que outra pessoa tinha ouvido a Mariana dizer aquilo. Nem a Inês, nem a Carla, nem ninguém da turma tinha ouvido a ofensa, mas todAs acreditaram no relato [não escrevo todOs, porque os rapazes estavam longe disto]. É o famoso e comum "diz que disse".

 

Perguntei à Carla se era verdade que tinha ameaçado bater à Mariana. Assumiu que sim. 

Eu: Já pensaste que pode ser mentira? Que se calhar a Mariana não disse nada? Mesmo que tivesse dito, as coisas não se resolvem a bater, não é? Mas ela pode nem sequer ter dito nada e tu, só porque alguém disse que ela disse, pensavas bater-lhe? Achas isso bem?

A Carla encolheu os ombros, mas concordou que não. A expressão dizia, no entanto, que, se a Mariana tivesse dito aquilo, merecia que lhe batesse. 

 

A este ponto, eu quis investigar melhor o diz-que-disse. Quem é que disse à Inês. Mandei chamar essa menina. Quem é que lhe disse a ela, etc. Parecia um novelo, e eu ia puxando o fio... A certa altura, "foi uma menina do 1.º ano que ouviu". Como só havia uma turma de primeiro ano, não seria difícil descobrir que menina tinha sido, disse eu, mesmo sem se saber o nome dela. 

 

Nesta altura da "investigação", a Luísa diz: "Pronto, eu confesso."

Eu: Confessas o quê, Luísa?

Luísa: Fui eu que inventei que a Mariana tinha dito aquilo. Eu e ela tínhamos discutido, eu estava zangada, e então inventei que ela tinha dito aquilo. Mas ela não disse nada. [Para a Mariana]: Desculpa.

 

Não sei que cara fiz, mas fiquei parva. Parva com o requinte da Luísa: ela não foi dizer à Inês que ouviu a Mariana dizer aquilo, disse a outra pessoa que outra pessoa tinha ouvido a Mariana dizer aquilo. Fez a coisa de modo a que dificilmente se descobrisse a origem do boato. Depois, quando viu que toda a gente [leia-se: todas as meninas] estava contra a Mariana, que proclamava em vão a sua inocência, a consciência pesou-lhe e disse à Mariana que acreditava nela. Pudera, ela - e mais ninguém - podia ter a certeza que a Mariana não estava a mentir...

 

Foi uma aprendizagem para todas as envolvidas. A Inês acabou por pedir desculpa à Mariana por ter acreditado no que lhe contaram "à primeira" e ter duvidado dela. A Mariana desculpou. A Carla também lhe pediu desculpa e também foi desculpada.

 

A Luísa, espero, aprendeu que a mentira "tem pernas curtas" e que as zangas são normais entre amigos, mas não se resolvem com intrigas, antes pelo contrário.

 

Eu aprendi, de uma forma muito direta, que as crianças podem ser cruéis. Já sabia, mas ver assim, em direto, que podiam ser cruéis e tão rebuscadas, não estava à espera. 

 

 

*As amizades na turma não tinham em conta o tom da pele. A Inês e a Carla não eram particularmente amigas (a Mariana era mais amiga da Inês do que a Carla, antes e depois deste episódio), pelo que não pude deixar de achar, na altura, como agora, que a Carla tinha levado a peito a alegada ofensa, por uma questão de cor.

07
Jun20

Está ou não está, eis a questão!

(quando um aluno tem o vídeo desligado)

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 4.º (ensino à distância).

 

Estamos a meio da correção de um exercício do manual. Peço a um aluno que responda.

Aluno: Desculpe, professora, eu não tenho aqui o livro.

Eu: E só agora é que deste conta? Já corrigimos um exercício!

Aluno: Posso ir buscar o livro?

Eu: Sim, vai e despacha-te!

O aluno sai, deixando o microfone e o vídeo ligados.

[voz-off, de mulher]: Deixaste o vídeo ligado? Estás parvo?!? Assim sabem que não estás lá!

 

 

 

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