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Retalhos da vida de uns professores

Por aqui contamos episódios que se passaram dentro de uma sala de aula. Se és professor e quiseres, junta-te a nós!

Por aqui contamos episódios que se passaram dentro de uma sala de aula. Se és professor e quiseres, junta-te a nós!

Retalhos da vida de uns professores

05
Jul20

As crianças às vezes surpreendem-nos

Eu disse "às vezes"? Queria dizer "muitas vezes"!

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º ano.

 

Na altura eu era professora titular de turma no 1.º ciclo do Ensino Básico. Trabalhava numa escola pequena, com apenas cinco turmas. Era professora da turma desde que estavam no 2.º ano, que tinha sido o primeiro ano que tinha trabalhado naquela escola.

Sem querer entrar em pormenores sobre a forma como organizava o meu trabalho com a turma, terei de dizer algumas coisas, para contextualizar o episódio que quero contar - o tal que justifica o título deste post.

Havia na sala, desde o início do 2.º ano, um Diário de Turma (DT) - uma folha A3 dividida em colunas, com os títulos "Gostei", "Não gostei", "Proponho" (estes títulos podiam ter e tiveram alterações, e chegámos a ter quatro colunas, em dada altura). Neste DT, os alunos (e eu também) escreviam o que achassem que deviam escrever, sabendo que tudo o que escrevessem seria lido e devidamente discutido na reunião que tínhamos semanalmente (onde fazíamos outras coisas para além de ler e discutir o DT, mas isso agora não é para aqui chamado).

Como é natural, algumas crianças participavam mais na reunião do que outras. Algumas, garanto-vos, parecia que estarem lá ou não estarem era exatamente a mesma coisa, semana após semana.

Quando iniciámos o 3.º ano, recebemos três novos alunos: o JF, o JP e a J (sim, por coincidência todos tinham nomes começados por "j"!). A J tinha mais um ano do que o resto da turma, por ter ficado retida ("chumbado", para quem não esteja familiarizado com o termo oficial) uma vez, e o JP tinha mais dois anos, por ter ficado retido duas vezes.

Ao fim de pouco tempo de aulas, o DT começou a ficar cheio de ocorrências negativas a respeito do JP, porque, após os primeiros dias de adaptação, começou a bater nos colegas "a torto e a direito", aparentemente sem sequer ser provocado.

Na reunião, quando se lia alguma ocorrência negativa, a pessoa que a tinha escrito podia explicar melhor o que se tinha passado. Depois, dava-se a palavra à pessoa visada (se houvesse alguém), para se justificar ou apresentar a sua versão dos factos. Depois, outras pessoas que tivessem testemunhado ou tivessem algo a acrescentar sobre o assunto poderiam também falar. Da discussão poderia resultar um pedido de desculpa, uma proposta de ajuda, um compromisso, enfim... o que nos parecesse mais pertinente.

Ora, no caso do JP, quando lhe foi dada a palavra, ficou calado. Não se defendeu, não acusou ninguém de o ter provocado, mas também não assumiu nenhuma culpa. Mesmo quando várias testemunhas disseram que ele tinha agredido os colegas de forma gratuita (não usaram estas palavras!), o JP ficou em silêncio. Deixou-nos [a mim sei que deixou] sem saber que fazer, ou que dizer, para além de apelar a que nos dissesse algo, que nos dissesse o que lhe tinha passado pela cabeça, para tentarmos perceber por que razão magoara colegas sem eles lhe terem feito (nem dito) nada de mal. Não se tratava, de todo, de decidir um castigo ou algo semelhante. Queríamos perceber para poder ajudar a evitar que a situação se repetisse.

Eis senão quando, a N, uma aluna que, desde o 2.º ano, não participava nas reuniões, por iniciativa própria (e que parecia não ligar nada ao que lá fazíamos), pede a palavra e, quando lha dão, diz, calmamente [é claro que não consigo reproduzir o discurso, mas acho que consigo ser fiel à sua essência]:

"Se calhar o JP, na outra escola, ... se calhar batiam-lhe, e agora ele veio para esta, e, como ninguém lhe bate, ele começou a bater, por causa do que lhe fizeram na outra escola."

Acaba ela de falar, ou enquanto ainda falava, já não recordo bem, o JP começa a chorar, convulsivamente. Chorou tanto quanto precisou. Quando acalmou, disse que era exatamente aquilo. Na escola anterior, tinha sido vítima constante de outros miúdos, sem se conseguir defender. Tinha "metido para dentro" toda a raiva, frustração, dor, o que fosse, que sentia e, na nova escola, ao ver-se no meio de crianças que não o tratavam mal, "deitou cá para fora" tudo o que o tinha oprimido, acabando estas por "pagarem" o mal que as outras lhe tinham feito.

A partir daquela reunião, o JP não voltou a agredir os colegas (ou, pelo menos, não mais do que qualquer outro, em pequenos conflitos). Não era realmente uma criança violenta, era até bastante calmo, e assim continuou, bem mais feliz na escola do que tinha sido anteriormente, até ao fim do 4.º ano.

Este episódio mostrou-me que nem sempre sabemos o que vai na cabeça das outras pessoas. A N. surpreendeu-me muitíssimo, ao apresentar aquela reflexão hipotética, que se revelou tão certeira, e que contribuiu de forma tão decisiva para o desfecho feliz de uma situação complicada (e que se poderia ter agravado nas semanas e meses seguintes).

 

 

Por outro lado, o comportamento do JP veio confirmar a ideia, tantas vezes transmitida em séries de crimes (e não só), de que muitas vezes uma pessoa vítima de abuso de certo tipo se torna ela própria abusadora do mesmo tipo. Normalmente, nas séries, isso acontece mais se não tiver havido acompanhamento psicológico da pessoa enquanto vítima, para a ajudar a processar e a ultrapassar aquilo por que passou. Eu sei que há abusos muito piores do que miúdos a baterem em miúdos, mas não deixa de ser uma experiência traumatizante para quem a vive.

Agrada-me, nesta memória, pensar que o que fazíamos (o DT, a reunião semanal) foi fundamental para que o JP pudesse ultrapassar o que tinha passado e virar uma nova página no seu percurso. Agrada-me igualmente pensar que a aparente "mosca morta" (a N) durante as reuniões estava afinal bem viva!

20
Dez19

Nada de confusões!

(prof.ª titular vs prof.ª de inglês)

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

Quando me viu passar pelo espaço do recreio, um aluno correu para mim, abraçou-me e disse:

- É a melhor professora de sempre!

Mas, logo a seguir, acrescentou:

- Melhor professora de inglês!

Eu não estava à espera do primeiro comentário, mas não estranhei o segundo, pois a consciência deve ter-lhe dito que a melhor professora do mundo era a professora titular de turma, que está com ele desde o início do 1.º ano de escolaridade. Eu só sou sua professora desde setembro, e apenas duas horas por semana. Há que ser leal! 

18
Jan19

A prisão

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

No fim da aula, estava apenas um aluno na sala (porque se atrasou no trabalho), além de mim. A certa altura, pergunta-me:

 

- Professora [ou terá sido Mrs Apalidow? Não me recordo.], por que é que a escola é uma prisão?

 

Eu [sem saber muito bem que dizer]: A escola não é uma prisão... Numa prisão os prisioneiros não vão para casa ao fim do dia...

 

Aluno: Mas por que é que é uma prisão durante o dia?

 

Eu: Se a escola fosse uma prisão, então todos os trabalhos seriam prisões... Não é uma prisão, é uma obrigação... É a vida!

 

Aluno: ...

 

Eu [em pensamento]: Como eu te entendo, J. ... A escola às vezes também me parece uma prisão!

16
Dez18

Como classificar esta pergunta?

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

Numa segunda-feira, disse à turma (de inglês) que ainda não tinha acabado de corrigir os testes, mas que tentaria entregá-los na aula seguinte, que era logo na terça-feira*. Comentário imediato de um aluno:

 

- E o que é que fez no sábado?

 

Episódio vivido em primeira mão, ninguém me contou...

 

*E entreguei mesmo.

25
Out18

O clássico

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

Intervalo da manhã. Um aluno, antes de sair, aproximou-se de mim com o lanche na mão. Era um bolo com um aspeto delicioso e um cheiro maravilhosamente doce [e bom. Há cheiros doces maus.]. Ele estava com um ar mesmo satisfeito a comer o bolo. E comentou: 

 

- O creme do bolo é muito bom. É igual ao das bolas de berlinde*!

 

Resultado de imagem para bolas de berlim

 

 

*Quem nunca ouviu este "clássico"?

04
Out18

Cumpri?

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

Na penúltima aula de inglês numa turma, um aluno (D.) não fez nada do que lhe disse. Pedi-lhe a caderneta a meio da aula para eventualmente escrever um recado - que só escreveria no fim da aula, se o trabalho continuasse por fazer.

 

O trabalho ficou por fazer. Então, quando já tinha mandado a turma sair, abri a caderneta para começar a escrever. O D. ficou um bocadinho para o desesperado, com os olhos em lágrimas. Ao que parece, quando os pais leram um recado do professor titular, zangaram-se a sério com ele [o filho - convém esclarecer, da maneira que as coisas andam... Abençoados pais!] e ele [D.] não queria realmente levar outro recado. 

 

Ao ver o miúdo tão desesperado, pensei duas coisas:

 

- Se eu não escrever o recado, ele vai ficar a pensar que basta fazer um choradinho para a professora de inglês não escrever para os pais - por consequência, vai continuar a portar-se mal e a não fazer o que lhe mando...

 

- Pode ser que, ao não escrever o recado, e ao tentar outra abordagem, pelo menos hoje, consiga estabeler uma "ponte" com o D., e as coisas melhorem.

 

Escolhi a segunda opção. Não escrevi o recado, mas conversei com ele, dizendo-lhe que, nas próximas aulas (não defini quantas) teria que mudar o seu comportamento para melhor, pois, se não mudasse, eu iria garantidamente escrever para os pais. Ele disse que "se ia portar bem". Eu levei-o a esmiuçar o que era "portar-se bem", escrevi essa listagem no meu bloco e, no fim, li-a em voz alta, com ele a olhar para o que estava escrito, e disse-lhe: "Agora, assina o compromisso." Ele assinou. 

 

Depois, para que ele pudesse apresentar uma justificação para a demora naquele dia, pedi-lhe que recolhesse os cartões com os nomes, espalhados pelas mesas, e dissesse aos pais que me tinha estado a ajudar (o que era verdade, a partir daquele momento).

 

Hoje foi a primeira aula a seguir ao que acabei de contar. O D. esteve muito bem. Fez o que devia, sem demoras, não atirou coisas pelo ar, enfim... foi civilizado! No fim da aula, perguntou-me se podia "dar-me uma palavrinha". Eu disse que sim. Veio ao pé de mim e perguntou-me ao ouvido:

 

- Cumpri?

Eu, à primeira, não percebi a que é que ele se referia. Nunca mais tinha pensado no compromisso! Por isso, respondi:

- O quê?

- Cumpri?

Fez-se luz no meu espírito. Desta vez, soube o que dizer:

- Vamos ver!

Fui buscar o bloco, abri na página do compromisso e li a listagem em voz alta. Para cada "componente", o D. disse se tinha cumprido ou não. Tinha cumprido tudo. Ficámos ambos contentes, mas eu não perdi a oportunidade de lembrar:

- Nas próximas aulas também é para cumprir!

Ele concordou, e disse que era para cumprir até ao "final do ano". Eu concluí que assim só teria maravilhas para dizer na avaliação. Ele sorriu, concordando, e saiu da sala - não sem antes arrumar umas cadeiras que tinham ficado fora do sítio.

 

Que bom será se assim continuar...

 

 

01
Out18

Apelido estrangeiro... #só que não!

Bruxa Mimi

Eu ensino inglês a alunos de terceiro e de quarto ano. Eles tratam-me por "Mrs" + o meu último apelido. O meu último apelido é 100% português. Mas já reparei que muitos alunos, de várias turmas (tenho nove turmas), quando falam comigo, dizem "Mrs Apalidow", dando um sotaque inglês ao meu "Apelido", como se a seguir a "Mrs" não pudesse vir um nome português...

24
Ago18

Expressões que "pegam"

Bruxa Mimi

Ano de escolaridade: 3.º.

 

Numa conversa entre toda a turma, sobre questões de comportamento, um aluno (muitas vezes envolvido em conflitos) nega ter feito aquilo de que o acusam. Diz logo uma colega, num tom irónico:

 

- Sim, sim, tu és "um anjinho caído do céu com mãos de leite"!

 

Obviamente que a expressão foi inventada por ela na altura, sem parar para pensar no que estava a dizer. Mas a expressão foi muito bem acolhida pela turma, que passou a usá-la ocasionalmente, em situações semelhantes, isto é, quando alguém pretendia deixar claro que não acreditava na proclamada inocência de um@ colega.

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